Primeira volta ao Brasil

Neste post você vai encontrar as reflexões da primeira volta ao Brasil desde que me mudei para a Suécia há dois anos atrás. Clique aqui para acessar a série de posts sobre a vida na Suécia.

Há dois anos morando na Suécia e sem visitar a terrinha, essa Bahiana que vos escreve aqui estava com o coração contando os minutos para voltar para casa e elevar os níveis de dendê no sangue. E foi com muita alegria que desembarquei no aeroporto de Salvador recepcionada pela família e entes queridos que não via a hora de abraçar. Que festa maravilhosa!

E o mês que passei por lá foi maravilhoso para me mostrar o poder transformativo das minhas experiências dos últimos anos, assim como a força da imutabilidade da nossas raízes que eu desenvolvi e finquei durante a minha vida.

Ao sair de casa em Estocolmo com destino ao Brasil, passei horas angustiada com o sentimento de que estava esquecendo muita coisa, mas não conseguia lembrar o que era. Horas depois, cheguei à conclusão de que na verdade, minha angústia vinha do fato de que não conseguia levar na mala pro Brasil tudo que queria – minha casa aqui, meu trabalho, minhas memórias, meus amigos, meus lugares prediletos pro aqui – para mostrar e compartilhar com os meus.

Muito louco pensar que a minha vida por aqui, permaneceria intangível, moldada apenas por palavras e narrativas para aqueles que mais importam para mim. Mas também há algo de precioso em ter essas memórias e histórias para contar e dividir com eles através da minha perspectiva pessoal tudo que vi, vivi e aprendi nestes últimos anos.

Nas minhas semanas no Brasil, confrontei paradoxos interessante que me fizeram refletir sobre a minha escolha de morar na Suécia. E o mais intenso foi perceber que ao mesmo tempo que tudo mudou, tudo continua o mesmo, e isso traz implicâncias positivas e negativas ao meu ver.

A vida segue, a vida sempre tem que seguir e isso vai acontecer sem a sua presença. Bebês nascem, pessoas próximas se vão, muitas celebrações ocorrem no meio do caminho e você não está lá para dividir esses momentos cotidianos com as pessoas que quer tanto bem. E isso dói, mais do que você poderia imaginar.

Mas, por outro lado, é tão gratificante voltar e perceber que o que é verdadeiro continua e sempre continuará forte e belo, como as amizades sinceras, os momentos com a família, aqueles lugares que mais ama e que sempre farão parte de você.

Foi tão bom visitar os lugares e pessoas que fizeram parte de minha vida, mas é tão bom também perceber que não pertenço mais unicamente à eles, que fiz ninho em outro lugar e que me estendi de forma inexplicável para abarcar o amor em dois continentes e em duas culturas.

A gente pode deixar laços de amor por onde passa e é lindo voltar e ver que viver dessa forma foi e sempre será a melhor forma de viver. Somos e não somos sozinhos no mundo, e é muito importante preservar o equilíbrio entre ser independente e reconhecer a colchinha de retalhos de amor que faz de nós quem nós somos, reconhecer o papel e o amor que cada um teve e tem nas nossas vidas.

Voltei do Brasil com o coração cheio de amor e inspiração e deixei por lá o meu melhor com quem eu amo. Trouxe elementos novos e finalizei ciclos importantes. E ouvi de muita gente que meu tom de voz estava tão baixo, quase inaudível. Reflexo de uma cultura diferente e mais silenciosa na qual estou inserida. Mas também ouvi dizer que meu sotaque baiano não mudou nem um pouquinho, deixando claro que algumas coisas podem até mudar, mas a substância continua a mesma.

E essa foi a conclusão dessa viagem deliciosa ao Brasil: tudo muda e tudo continua o mesmo. E que eu sempre me permita mudar, mas que nunca mude o que é mais precioso – a essência que foi talhada junto de quem eu mais amo, com as experiências e lições que aprendi em casa.